Friday, June 26, 2009

"Eu não ficaria surpreso se a Terra parasse de girar amanhã"

No final das contas, foi Will.I.am quem resumiu tudo que estou sentindo agora. Eu não sei se ele era louco, só que ele era minha loucura. Obviamente, nunca lidei bem com isso. Imagine só. Uma menina metidinha à besta, posando de intelectual, escondendo uma pasta com recortes de jornais. Assim eu era aos 14, 15 anos... Mas a coisa começou muito antes e a verdade é que sempre soube que nunca iria terminar. Minha mãe sempre me conta a mesma história. Como era impossível me tirar da frente da tv quando eu tinha 2 ou 3 aninhos e os clipes de Thriller iam chocando o mundo um a um, chocando quase tanto quanto a notícia de ontem. Particularmente, minha primeira lembrança é mais tardia. Eu cantarolava Bad no caminho para a escola primária. Disso lembro bem... Aí, um dia, quando eu estava pelos 12 ou 13, vi a notícia de que o clip de Black or White (BOW, para os íntimos) iria fazer sua estréia em rede mundial. O mundo ia parar, os brasileiros, diante do Fantástico. Estava na casa do meu avô com a família. Implorei para irmos logo embora para eu não correr o risco de perder a oportunidade de gravar o acontecimento.

Naquele tempo, eu acompanhava tudo pelos jornais impressos e revistas (eu tinha um acordo com a dona da banca, ela me deixava folhear todas as revistas e eu comprava todas em que ele aparecesse). Engraçado! As matérias eram sempre ofensivas. Nada desse endeusamento desenfreado com o qual vocês estão sendo bombardeados agora. Lembro bem de uma reportagem que tirava sarro do clip seguinte a BOW (falando nisso, ele odiava que a gente dissesse "clip"): Remember the Time. O tom não era só jocoso, era rancoroso. Eu tomei a ofensa como pessoal, sei lá por que diabos, mas dei de ombros e recortei a foto. Guardo até hoje. Foi uma das primeiras. Talvez a segunda. A primeira mesmo foi uma que guardei com a maior vergonha, e só por consideração à minha tia. Ela recortou do jornal e me entregou: "é dele que você tanto gosta, não?" Eu guardei dobradinha no porta-moedas da carteira. Coisa de adolescente boboca guardar foto de ídolo pop. Tenho-a até hoje: com as dezenas de marcas de dobras.

Naquela época, não existia internet (ele comemorou seu advento para se comunicar com os fãs). Coisa comum em casa era o grito: "Miiiichaaaeell"; vindo de alguém da sala. E lá vinha a Andrea trombando em todos os móveis para pular desesperada na frente da TV. Acabava a matéria, dane-se se falassem mal, eu dizia toda feliz: "eu vi ele, eu vi ele". É, com o erro assim mesmo, era assim que saía. Tinha virado a brincadeira da família (que parou para chorar junto comigo ontem).

Porém, um dia, vi no jornal que a tal da internet tinha um site com notícias dele. Era feito pelos fãs. MJIFC, não? Eu tinha acabado de comprar meu primeiro computador. Pedia para minha mãe entrar no site no trabalho e salvar as notícias em um disquete. Oh, coisa boa, pela primeira vez na vida, notícias sem ódio, sem malícia. Ato contínuo, comecei a graduação e podia usar os computadores do laboratório da universidade. Demorava um século para uma foto carregar. Eu salvava todas em disquetes. Não tenho mais como abrir disquetes. Guardo todos em caixinhas até hoje.

Mas eu pulei um pedaço da história. Entre os 12 e esses 17, eu comecei a encontrar a pessoa por trás da máscara, da fedora, do óculos, da luva... do artista. Cheguei no colégio um dia e fui presenteada por uma colega. Eram umas páginas arrancadas de uma revista que traduziam uma parte da auto-biografia dele (é, todo mundo que me conhece me presenteia com coisas assim). "O céu não tem que ser pintado de azul, o desenho não tem que estar no centro da folha de papel". Guardei essa frase até hoje. Precisava dizer alguma coisa a mais? Se precisava, ele disse no portão de casa, citando: "Minhas leis e as leis de Deus, vergonha a quem pensar mal disso".

Não existia convenção social para esse homem. Costumes, nada disso o afetava. Ele era uma aberração mesmo. A imprensa sempre teve razão. Só uma aberração conseguiria ser tão trágica e dolorosamente individual. Se não era uma lei de Deus (a lei moral, para ele), não há regra neste mundo que ele não tenha violado. Na verdade, nem se tratava de violar. Elas simplesmente não existiam para ele. Por isso, ele estava tão fora do alcance da nossa compreensão.

Olhar para ele era ter que encarar nossos limites. Por que somos como somos se não é necessário que o sejamos? Pois é, através dele é que descobríamos que não era necessário que o fossemos: "E se eu quiser colocar uma pinta aqui [ele dizia apontando para a testa], e se eu quiser um terceiro olho?" A gente teria que dizer: "É, você pode, eu é que não dou conta de tolerar isso". Isso é que doía tanto em tantos. Isso é que o fazia tão odiado. Daí que eu fui aprendendo a razão de ser de tanto ódio contido naqueles meus primeiros recortes. O executivo da gravadora ordenava que ele tirasse fotos com alguma super-modelo, ele posava abraçado com o Mickey Mouse na Disney! Esse era o Michael. O único verdadeiro subversivo do pop. Por isso, o Peter Pan do Pop.

Não é que ele tivesse um intelecto infantil, fizesse beicinho e birrinha sem motivo. Nunca tive notícia de nada nesse sentido. Ele pregava a inspiração nas crianças, ao mesmo tempo em que esclarecia que não estava dizendo para fazermos criancices. Ninguém entendia! A criança dele era meio que um bom selvagem: a pessoa que ainda não foi determinada por convenções que soarão como dogmas instranponíveis, quando o próprio mecanismo da socialização tiver sido encoberto para nossos olhos.

Ele era o Peter Pan. Nós, sua legião de fãs, os garotos perdidos. Liz Taylor, sua Wendy (e eu que achava que ele é quem sofreria a morte dela). No fundo, todo mundo sabia como a história terminaria. Peter não pode crescer. Os garotos perdidos têm que crescer. Eles se separam no final. Peter volta sem eles para Neverland. Mas a visita de Peter em nossa janela à noite, nossa temporada na Terra do Nunca... nada foi em vão. Nós ficamos, ele se foi, envelheceremos, ele não! Mas será que cresceremos mesmo? Mentira! Só guardaremos as aparências. Antes de partir, ele ensinou o essencial: "Neverland é um lugar na mente". Aquela que ele construiu na matéria era só um modelo sensível para a gente entender a idéia regulativa. A vida dele era também um modelo sensível dessa idéia regulativa. Agora a gente entendeu. A missão dele está cumprida. Podemos ficar para sempre na Terra do Nunca...


Keep Michaeling...

15 comments:

Daniele said...

Estou aos prantos...

Joy said...

lindo o que você escreveu manona. Me emocionei. nem sei o que dizer...

Joy said...

lindo o que você escreveu manona. Me emocionei. nem sei o que dizer...

Peterson "PeterKing" said...

Pois parou...e ficou na ponta dos pés!
Belo Texto!

Raquel said...

Estou que nem a Dani, aos pratos... :(

Miguel said...

Ainda bem que existe alguém como você neste momento, Andréa. Uma pessoa que sabe usar as palavras, tem conhecimento de causa e consegue emocionar a todos nós que sabemos exatamente o que significa cada frase do seu texto. Neverland definitivamente é um lugar na mente.

Niemand said...

Oi, Pessoal

Pensei muito em todos vocês. Só nós sabemos o que estamos sentindo nesse momento e nem adianta tentar expressar em palavras. Eu me sinto dilacerada por dentro quando vejo as imagens da cena da tragédia, quando ouço coisas como "o corpo de Michael Jackson", quando penso que nunca mais vou entrar na net ao final do expediente para ver as fotos e os vídeos das saidinhas dele no dia, quando penso na dona Kate e, sobretudo, nas crianças...

Porém, um pensamento me consola e queria compartilhá-lo com vocês. Nós sabíamos que ele queria essa redenção. Ainda que nós não precisássemos dela, porque nos orgulharíamos dele de toda forma, ele precisava. E a única maneira dele consegui-la seria com esse fim trágico. Não que nós ou ele desejássemos que isso tivesse acontecido. Mas a única forma do legado dele não ser perdido, de toda uma vida ser resgatada era essa.

Por melhor que ele fosse em Londres, a mídia nunca admitiria a vitória dele em vida. O mesmo Sérgio Martins que o enaltece agora teria repetido os adjetivos que usa há décadas para desqualificá-lo. E se ele não aguentasse a maratona de shows? Tanto pior. Aí, sim, seria massacrado de vez. Ele envelheceria no isolamento e a morte dele, em 20 ou 30 anos, não passaria de uma notinha nos jornais.

Tanto é assim que, na hora do acontecido, muita gente achava que era uma jogada dele. E foi mesmo! A última jogada, ainda que não planejada. Ele estaria rindo agora e dizendo: "cairam como patos, essa era a atenção que eu queria". Enfim, morrer, todo mundo morre, o importante é a vida não ser em vão e ele, infelizmente, precisava dessa saída de cena dramática para o show todo ser lembrado para sempre.

Quanto a nós, cabe justamente que usemos essa atenção para preservar o legado dele da forma correta. Pensem em quantos novos fãs não estão surgindo agora. Por outro lado, ouçam as bobagens que a mídia diz até quando é bem intencionada. Alguém precisará apresentar esses novos fãs a toda verdadeira dimensão desse legado. Essa tarefa cabe aos fãs veteranos. É verdade que não temos mais 15 anos e não podemos dedicar a ele o tempo que dedicamos no passado, porque cada um de nós tem sua própria estrada para ser percorrida. Porém, somos muitos. Se cada um fizer um pouquinho, não vai pesar nos ombros de ninguém.

Vamos ficar em contato.

Beijos a todos,
mj_forever ;-)

Panda said...

Andréa, eu pensei em vc tb, entre tantas outras coisas. Saudades de vc e dos seus textos. Logo que vi esse seu texto na página inicial da 'beats', fiquei louca para entrar em contato com vc!

Muito lindo o que vc escreveu... Saudades!

Beatriz, Bia, 'Dazzling Star'

Niemand said...

Oi, Bia

Muito obrigada por ter vindo aqui. Também falei com o Demes e a Pat ontem. Fiquei contente por reencontrar pessoas por quem tenho tanto carinho, ainda que seja nessa nossa "darkest hour". Talvez a parte mais especial do legado dele tenha sido nós uns para os outros, não é?

Beijos

Rodrigo Maurício (Beats) said...

Olá Andréa,

Belíssimo texto, como de costume. Exceto a parte dos disquetes :), foi exatamente assim comigo. Essa coisa de crescer "com" o Michael, com a presença (distante) deste nosso "membro da família".

Pensei muito em quão espetacularizada se tornou a saída de Michael deste mundo. Assim como toda sua vida e carreira, foi uma hipérbolde, um grande impacto mais uma vez em toda a cultura popular. O triste disso tudo, é sabermos que não ouviremos mais a sua voz, que ele se foi e ficamos todos "speechless".

É hora de juntarmos nossas forças e organizarmos a verdadeira "história", para as futuras gerações. Esta será a melhor contribuição que poderemos deixar para o Michael, assim como foi feito durante o julgamento, com a preservação de toda a memória daqueles dias difíceis. Chegou a hora de nós contarmos a HIStória, como ela de fato ocorreu.

Sem querer me alongar, mas já me alongando, queria compartilhar uma cena que vi hj, ao andar pela rua. Numa das ruas perto de minha casa, vi um mendigo com a Istoé Gente especial sobre Michael nas mãos, folheando as páginas com atenção. Eu não sei como ele conseguiu a revista, se alguém a deu, se ele comprou (em detrimento de outras necessidades), mas a cena me tocou bastante. O homem era realmente magnético.

Andréa,
bjos soteropolitanos.
Maurício

Niemand said...

Oi, Mauricio

Saudades, rapaz. Penso como você. Espero que possamos contar com você, assim como com os demais, para colocarmos em prática esse discurso o quanto antes.

Abraço!

mone.sanches said...

Poxa... obrigada Andréa, por mais um texto magnífico!
Parece que quando compartilhamos nossos sentimentos, diminui nossa dor.
MJ-Forever !!!!

Juliana said...

Andréa, vc soube colocar em palavras tudo o que nós fãs estamos guardando no coração e mtos sem saber como expressar. Provavelmente vc não se lembra de mim, mas sou dos tempos da Beats e lembro perfeitamente dos seus posts (bons tempos).
Realemente somos os garotos perdidos de Michael, e não podemos deixar de lembrar não só do legado que ele deixou pro mundo da música mas também o quanto o homem Michael Jackson marcou a vida de cada um de nós aqui. Tudo bem, alguns aqui podem nunca ter tido a oportunidade de vê-lo, mas sabemos que mesmo assim ele participou de nossas vidas de várias maneiras, seja com sua arte, seu exemplo como ser humano e as amizades que se construíram graças a ele. E por falar nelas, no último domingo nós fãs aqui do Rio fizemos uma homenagem ao rei e esse seu texto foi lido. Foi um momento muito lindo.
Também penso como vc, que ele se foi em um momento que, apesar de ser muito doloroso pra nós, contribuiu para finalizar a sua história fazendo-o receber todo o reconhecimento mais do que merecido.
Força pra nós.

Niemand said...

Obrigada, meninas. Eu fico muito feliz se posso ajudar um pouco em um momento de tanta dor. Por mais que eu goste da minha vida, sendo uma pessoa de grandes amigos e muitos sonhos, a verdade é que eu não sei viver sem Neverland para me refugiar de vez em quando, não. E nem quero aprender! Só que, por mais que Michael tenha me ensinado a estar lá sempre que eu quiser, isto só funciona porque vocês também querem isso e eu encontro vocês lá. Então eu é que agradeço a vocês por tudo que já vivemos juntos e ainda viveremos.

Beijos

Maurício said...

Sim Déa, contem comigo.
Já estou me mexendo e colaborando como posso neste momento tão difícil para todos nós.

abs e saudades,
Maurício.