Friday, October 30, 2009

A Última Billie Jean




Um ente nasceu ou se metamorfoseou como Michael Jackson há 25 anos em um especial de TV que comemorava os 25 anos da gravadora Motown. Foi o primeiro moonwalk... A primeira aparição do artista de Billie Jean. Fred Astaire e Gene Kelly, maiores dançarinos da época de ouro de Hollywood, ficaram simplesmente maravilhados. Astaire, aliviado, chegou a confessar que morreria em paz tendo encontrado seu sucessor.

De lá para cá, Billie Jean foi evoluindo sem jamais perder sua identidade original. Cada vez mais teatral, como diria Spielberg, ressaltando a luva única... a inesquecível fedora. Nosso Carlinhos de Jesus assinava embaixo, lembrando-se ainda da idéia genial das meias brancas, destacando os pés da entidade em movimento. Talvez atingindo o ápice da teatralidade na performance do clássico na turnê do álbum HIStory, Michael chegava com uma maleta e montava o personagem diante de todos para, finalmente, adentrar o spot de luz... momento de pura magia ("eu sempre terei que fazer Billie Jean no spot de luz rsrs" ~ MJ).

Então veio a turnê final ("the final curtain call") - This Is It. A turnê virou filme. Ninguém precisa relembrar por que. Como seria Billie Jean? Ela estaria lá? Ele... teria... tido... tempo? Vieram as chamadas para a TV, os traillers, o set list... Billie Jean estava lá, mas apenas como música sobreposta posteriormente a outras performances. Ele... não... teria... tido... tempo? Não, não era possível acreditar que aquela entidade faria seu ato final sem a assinatura de sua obra.

O filme This Is It caminha para o fim. As esperanças vão ficando para trás. Pela primeira vez, vemos não só a criatura do gênio, como seu ato de criação. As ordens para cada nota em seu devido lugar, a atenção a cada detalhe técnico. Porém... nada de Billie Jean! De repente... Kenny Ortega (não consigo mais pensar nesse nome sem ouvir a voz de Michael fazendo piada com sua sonoridade latina) aparece dizendo: "Michael estará com uma maleta executiva". Pronto! É o momento, já sabemos que a recriação dar-se-á justamente a partir de HIStory. Espera-se que o próximo take já traga MJ com a maleta e a mágica se dê pela última vez. A última Billie Jean!

Não acontece. Ele apenas planeja a posição da luz e como seu corpo será envolvido por ela, em que momento, de que maneira. Mas então, eis que um tanto de improviso, sem qualquer cenário, sem o figurino, sem efeitos... ironia das ironias... a última Billie Jean sequer tem o spot de luz e a fedora. A última Billie Jean é puramente Michael, para aqueles que ainda duvidavam de onde vinha a magia.

Começa devagar... "a-ha, não é tão bom quanto na era HIStory", já se apressam os mais céticos. Vai ficando mais rápido, mais preciso, o novo arsenal de passos vai aparecendo. A platéia vai se formando. Dançarinos e técnicos se aglomeram aos pés dele. No fim, saltam, agarram a própria roupa, socam o ar, gritam... deliram com o que viram... Kenny Ortega ("Orrrtêga" by MJ), um dos coreógrafos mais bem sucedidos da atualidade, se aproxima em êxtase da entidade: "Isto aqui é um templo... eu sou seu devoto". E this is it...

Tuesday, October 27, 2009

A Farsa do Diploma

Até que enfim, ouço a farsa do diploma sendo exposta em rede nacional de TV. O fato noticiado era a alta procura pelas vagas de gari na cidade do Rio de Janeiro, com direito a nada menos do que 50 doutores inscritos e mais de mil graduados. Felizmente, o especialista em relações de trabalho ouvido pelo noticiário para explicar a situação não se ateve à consideração talvez mais banal: nossa economia, tão louvada pelos admiradores do presidente Lula, tem um ritmo de crescimento medíocre demais para absorver tantos candidatos ao mercado de trabalho. Mas não é só isso...

Não quero aqui desmerecer o trabalho dos garis, apenas não estou interessada em medir a utilidade social, digamos assim, de profissão alguma. O que me interessa, especificamente, é o fato dessa profissão em especial não requerer grande formação intelectual, como atesta o próprio edital que convoca o concurso ao exigir apenas o ensino fundamental. Ora, além da falta de vagas, o que mais então empurra um diplomado para uma profissão que requer apenas um décimo de sua titulação? Simples, como destacou a reportagem, mesmo que sem maiores aprofundamentos, estamos colhendo os frutos da má formação escolar. Ou seja, diferentemente do que muitos querem fazer parecer, não adianta nada manter o sujeito nos bancos escolares por anos a fio apenas para lhe oferecer um canudo ao final da jornada.

Antigamente, sabíamos que nossos avós seriam inaptos para o exercício de certas profissões, porque eles concluíam apenas o primário. Agora, estamos diante de uma nova realidade: a turma do primário mal feito, como diria o Zé Simão, que, graças à progressão continuada (explícita ou não), virou também a turma do secundário mal feito, do ensino superior mal feito... Eles obtêm o tão almejado diploma, mas não a competência necessária para o exercício da profissão. Resultado: viram garis do mesmo jeito!

Está mais do que na hora de encararmos de frente o fato de que o aumento do grau de escolaridade dessas pessoas não passou de uma grande armação, literalmente, para gringo ver. Talvez, estejamos impressionando o Banco Mundial e não sei mais quais organismos internacionais que possam se entusiasmar com esses índices, mas quem contrata sabe que não pode contar com esses profissionais para nada. Pelo contrário, seus avós, do tempo do primário bem feito, deviam estar mais bem qualificados do que eles, com seus mestrados e doutorados que só servem para ocuparem uma moldura na parede.

Está na hora, acima de tudo, de uma mudança de mentalidade. Infelizmente, o Brasil elegeu um chefe de Estado sem diploma, não por desvalorizá-lo, mas por não valorizar o próprio conhecimento. Se déssemos valor ao "saber fazer" em si, nem precisaríamos perguntar a alguém se ele possui um diploma ou não. Simplesmente, observaríamos sua conduta profissional e seus resultados. Ora, estas são coisas para as quais nossas escolas não estão preparando ninguém. Estamos apenas usando o diploma como um escudo para farsantes. Uma jogada que vai ficando manjada.

Um exemplo: decretos governamentais exigem um diploma para a ocupação desse ou daquele cargo, então facilita-se a obtenção desse diploma. Damos, com isso, a aparência de termos pessoas qualificadas ocupando aquelas vagas, quando, na verdade, elas ficariam melhor se estivessem vazias, afinal, ao menos assim não causariam tantos estragos.

Tornarei meu exemplo mais concreto. Um decreto do governo do PR exige que, dentro de alguns anos, os professores de filosofia da rede estadual de ensino sejam todos formados em filosofia. Paralelamente, um programa da Capes propõe às universidades públicas que ofertem cursos para turmas fechadas (portanto, sem processo seletivo) de professores da rede a fim de que eles obtenham o diploma referente às disciplinas em que lecionam fora de suas áreas.

Particularmente, eu acredito que um historiador auto-didata poderia dar uma aula de filosofia muito melhor do que a de um dos tantos licenciados em filosofia mal formados que existem por aí. Porém, sejamos francos, a grande maioria dos professores da rede pública de ensino não domina nem mesmo o básico de sua própria área. Alguém aí acredita que vão dominar os conhecimentos de uma segunda área por causa de um curso rápido de finais de semana que não reprovará ninguém nem na entrada nem na saída?

Ah, quem se importa com os conhecimentos que eles dominam? Ouvimos argumentos do tipo: "pior é que não vão ficar". Não sei, honestamente, não sei se conseguiríamos piorá-los, mas sei que uma coisa vai mudar na situação deles: eles receberão um diploma que funcionará como um escudo protetor mantendo-os nas vagas que ocupam. E, depois, vamos entrar para o primeiro mundo, porque conseguimos os jogos olímpicos. Então tá...

Wednesday, July 29, 2009

Ele Está de Volta!

Não é que, às vezes, coisas boas também acontecem!! Go, Schummy, mostra para esses pangarés como é que se faz!!

Felipe, nada contra você, mas, que tal, voltar só ano que vem?

Tuesday, June 30, 2009

Nosso Michael


Peço perdão aqueles que nos acham patéticos, mas vou postar o texto abaixo para confortar meus amigos fãs e também para os curiosos que, diante do Michael Jackson da grande mídia, que voltou ao ataque antes mesmo que ele fosse enterrado, se perguntam como podemos ser tão loucos de amá-lo. Nosso Michael é este aqui, descrito por Miko Brando, uma das pessoas mais próximas a ele, bem como por qualquer outro que realmente tenha se aproximado dele:


"Michael foi meu ídolo. Ele tem sido minha figura paterna desde que meu pai morreu. É estranho viver sem ele. Eu nunca serei o mesmo e eu não sei nem mesmo se eu superarei essa perda. É como perder seu companheiro, alguém que você sempre pensou que estaria ali. Simplesmente não é certo. Ele significava muito para mim. Eu me sinto como uma pessoa diferente da que eu era antes de quinta-feira. Eu me sinto perdido. Ele foi um bom amigo por tantos anos.

Eu guardo como um tesouro o tempo que passei com Michael. Nós íamos às compras juntos, íamos a Disneylândia, viajávamos, passávamos um tempo na casa do papai. Ele simplesmente vinha e montava acampamento na casa do papai por algum tempo. Eu gostava de conversar sobre música, comer junto e me divertir com Michael. Nós simplesmente éramos bons amigos, é o melhor modo de colocar isso. Ele sempre esteve lá para mim quando eu precisei dele e eu gostaria de pensar que eu sempre estive lá para ele.

Eu realmente não tenho uma única memória de Michael que não seja assim. É duro quando se trata de amigos de longa data como nós. Minhas melhores memórias são do tempo que nós passamos conversando, ele me abraçando, tendo boas conversas e eu fazendo-o rir. Eu realmente gostava de fazê-lo rir. Eu dizia uma poucas coisas, só umas poucas palavras no ouvido dele e eu conseguia uma risada dele. Rapaz, ele tinha uma risada contagiante.

Acima de tudo, Michael era uma pessoa que se importava com os outros. Ele tinha muito amor no coração. ele se importava com todo mundo, especialmente com as pessoas nas ruas. Ele não era metido, não tinha ego e ele tentava encontrar tempo para estar com todos, porque ele não queria ferir os sentimentos de ninguém. Se ele achasse que tinha feito algo errado, isso realmente o incomodava. Ele tinha mais amor do que qualquer um que eu conheça.

O Michael que eu via todo dia era um que amava seus filhos. Eles eram seu foco principal. Ele era um homem muito ocupado, mas ele sempre queria ter certeza de que as crianças estivessem sendo bem cuidadas.

O que muitas pessoas talvez não saibam sobre Michael é como ele era bom com os negócios. A turnê que ele estava planejando é um exemplo perfeito. Ele era um perfeccionista e ele sabia exatamente o que ele queria e como conseguir. Tudo que dizia respeito à turnê tinha que ser aprovado por Michael. Simplesmente porque ele não vinha aparecendo na TV ou saído muito em público recentemente, isto não significa que ele não estivesse ocupado e ativo. Muitas pessoas têm especulado que ele estaria realmente estressado sobre a turnê, mas eu não acho que ele estivesse. Era a mesma rotina de turnês passadas.

Eu tenho pensado se haveria quaisquer similaridades entre Michael e meu pai, e eu não consigo pensar em nenhuma. Você já ouviu que os opostos se atraem? Eu acho que isso explica a amizade deles. Eles não tinham absolutamente nada em comum, mas quando você os coloca juntos, você não consegue separá-los. Ele amava o meu pai e eles passavam muitos dias juntos na casa do papai e em Neverland. Eles eram muito próximos.

Michael foi providencial ajudando meu pai durante os últimos anos da vida dele. Por isso eu sempre estarei em débito com ele. Papai tinha dificuldades para respirar em seus últimos dias e ele passava muito tempo ligado ao oxigênio. Ele amava ficar ao ar livre, por isso, Michael o convidava para Neverland. Papai sabia o nome de todas as árvores e flores lá, mas, estando no oxigênio, era difícil ele andar por lá e ver tudo, um lugar tão grande. Assim, Michael conseguiu para o papai um carrinho de golf com um tanque de oxigênio portátil para ele poder sair e curtir Neverland. Eles simplesmente dirigiam por lá, Michael Jackosn, Marlon Brando, com um tanque de oxigênio em um carrinho de golf.

Alguns dos melhores momentos que eu passei com Michael foram simplesmente aqueles em que estávamos sentados em um banco na rua principal da Disneylândia. Nós apenas sentávamos lá e observaríamos as pessoas. Algumas vezes, Michael estava disfarçado para não ser reconhecido, mas as pessoas sempre o reconheciam. Quando ele estava de mau-humor ou para baixo, eu simplesmente dizia: Michael, o banco, e isso o animava. Se eu sabia que ele queria se divertir, ou simplesmente sair, eu dizia: vamos ao banco, e nós íamos.

Certamente, Michael Jackson em um lugar público como a Disneylândia atraía multidões e alguma vezes nós tínhamos que levar seguranças conosco. Mas eles não iam para proteger Michael, eles estavam lá para proteger a multidão. Ele nunca se preocupava consigo próprio, mas sim que alguém poderia se machucar no tumultuo de pessoas que queriam vê-lo. As pessoas simplesmente enlouqueciam quando elas viam Michael Jackson.

Michael raramente chorava, mas eu acho que ele estaria aos prantos com a reação à sua morte. Ele estaria maravilhado e feliz que tanto do amor que ele deu voltou das pessoas que ele amou. Eu acho que ele respiraria fundo e simplesmente diria: obrigado.

A família ainda está planejando o funeral, mas eu acho que Michael iria querer uma celebração. Ele ia querer todo mundo lá. Ele amava seus fãs. Eu tenho convivido com um monte de grandes astros do cinema, mas os fãs de Michael são mais do que fãs. Ele sabia que os fãs tinham feito ele e ele não ia querer deixar ninguém de fora. Todo lugar onde ele ia, os fãs estavam lá. Ele me dizia que os fãs sempre sabiam o que ele estava fazendo. Eu não acho que alguém tenha tido fãs como os dele. Assim, Michael ia querer um funeral que incluísse seus fãs e os fizesse felizes. Ele iria querer dizer: Eu ainda estou com vocês e nós sempre estaremos juntos. Ele estava feliz e ele queria fazer todo mundo ao redor dele feliz. No final das contas, ele queria amor. No final das contas, Michael era amor."

Friday, June 26, 2009

"Eu não ficaria surpreso se a Terra parasse de girar amanhã"

No final das contas, foi Will.I.am quem resumiu tudo que estou sentindo agora. Eu não sei se ele era louco, só que ele era minha loucura. Obviamente, nunca lidei bem com isso. Imagine só. Uma menina metidinha à besta, posando de intelectual, escondendo uma pasta com recortes de jornais. Assim eu era aos 14, 15 anos... Mas a coisa começou muito antes e a verdade é que sempre soube que nunca iria terminar. Minha mãe sempre me conta a mesma história. Como era impossível me tirar da frente da tv quando eu tinha 2 ou 3 aninhos e os clipes de Thriller iam chocando o mundo um a um, chocando quase tanto quanto a notícia de ontem. Particularmente, minha primeira lembrança é mais tardia. Eu cantarolava Bad no caminho para a escola primária. Disso lembro bem... Aí, um dia, quando eu estava pelos 12 ou 13, vi a notícia de que o clip de Black or White (BOW, para os íntimos) iria fazer sua estréia em rede mundial. O mundo ia parar, os brasileiros, diante do Fantástico. Estava na casa do meu avô com a família. Implorei para irmos logo embora para eu não correr o risco de perder a oportunidade de gravar o acontecimento.

Naquele tempo, eu acompanhava tudo pelos jornais impressos e revistas (eu tinha um acordo com a dona da banca, ela me deixava folhear todas as revistas e eu comprava todas em que ele aparecesse). Engraçado! As matérias eram sempre ofensivas. Nada desse endeusamento desenfreado com o qual vocês estão sendo bombardeados agora. Lembro bem de uma reportagem que tirava sarro do clip seguinte a BOW (falando nisso, ele odiava que a gente dissesse "clip"): Remember the Time. O tom não era só jocoso, era rancoroso. Eu tomei a ofensa como pessoal, sei lá por que diabos, mas dei de ombros e recortei a foto. Guardo até hoje. Foi uma das primeiras. Talvez a segunda. A primeira mesmo foi uma que guardei com a maior vergonha, e só por consideração à minha tia. Ela recortou do jornal e me entregou: "é dele que você tanto gosta, não?" Eu guardei dobradinha no porta-moedas da carteira. Coisa de adolescente boboca guardar foto de ídolo pop. Tenho-a até hoje: com as dezenas de marcas de dobras.

Naquela época, não existia internet (ele comemorou seu advento para se comunicar com os fãs). Coisa comum em casa era o grito: "Miiiichaaaeell"; vindo de alguém da sala. E lá vinha a Andrea trombando em todos os móveis para pular desesperada na frente da TV. Acabava a matéria, dane-se se falassem mal, eu dizia toda feliz: "eu vi ele, eu vi ele". É, com o erro assim mesmo, era assim que saía. Tinha virado a brincadeira da família (que parou para chorar junto comigo ontem).

Porém, um dia, vi no jornal que a tal da internet tinha um site com notícias dele. Era feito pelos fãs. MJIFC, não? Eu tinha acabado de comprar meu primeiro computador. Pedia para minha mãe entrar no site no trabalho e salvar as notícias em um disquete. Oh, coisa boa, pela primeira vez na vida, notícias sem ódio, sem malícia. Ato contínuo, comecei a graduação e podia usar os computadores do laboratório da universidade. Demorava um século para uma foto carregar. Eu salvava todas em disquetes. Não tenho mais como abrir disquetes. Guardo todos em caixinhas até hoje.

Mas eu pulei um pedaço da história. Entre os 12 e esses 17, eu comecei a encontrar a pessoa por trás da máscara, da fedora, do óculos, da luva... do artista. Cheguei no colégio um dia e fui presenteada por uma colega. Eram umas páginas arrancadas de uma revista que traduziam uma parte da auto-biografia dele (é, todo mundo que me conhece me presenteia com coisas assim). "O céu não tem que ser pintado de azul, o desenho não tem que estar no centro da folha de papel". Guardei essa frase até hoje. Precisava dizer alguma coisa a mais? Se precisava, ele disse no portão de casa, citando: "Minhas leis e as leis de Deus, vergonha a quem pensar mal disso".

Não existia convenção social para esse homem. Costumes, nada disso o afetava. Ele era uma aberração mesmo. A imprensa sempre teve razão. Só uma aberração conseguiria ser tão trágica e dolorosamente individual. Se não era uma lei de Deus (a lei moral, para ele), não há regra neste mundo que ele não tenha violado. Na verdade, nem se tratava de violar. Elas simplesmente não existiam para ele. Por isso, ele estava tão fora do alcance da nossa compreensão.

Olhar para ele era ter que encarar nossos limites. Por que somos como somos se não é necessário que o sejamos? Pois é, através dele é que descobríamos que não era necessário que o fossemos: "E se eu quiser colocar uma pinta aqui [ele dizia apontando para a testa], e se eu quiser um terceiro olho?" A gente teria que dizer: "É, você pode, eu é que não dou conta de tolerar isso". Isso é que doía tanto em tantos. Isso é que o fazia tão odiado. Daí que eu fui aprendendo a razão de ser de tanto ódio contido naqueles meus primeiros recortes. O executivo da gravadora ordenava que ele tirasse fotos com alguma super-modelo, ele posava abraçado com o Mickey Mouse na Disney! Esse era o Michael. O único verdadeiro subversivo do pop. Por isso, o Peter Pan do Pop.

Não é que ele tivesse um intelecto infantil, fizesse beicinho e birrinha sem motivo. Nunca tive notícia de nada nesse sentido. Ele pregava a inspiração nas crianças, ao mesmo tempo em que esclarecia que não estava dizendo para fazermos criancices. Ninguém entendia! A criança dele era meio que um bom selvagem: a pessoa que ainda não foi determinada por convenções que soarão como dogmas instranponíveis, quando o próprio mecanismo da socialização tiver sido encoberto para nossos olhos.

Ele era o Peter Pan. Nós, sua legião de fãs, os garotos perdidos. Liz Taylor, sua Wendy (e eu que achava que ele é quem sofreria a morte dela). No fundo, todo mundo sabia como a história terminaria. Peter não pode crescer. Os garotos perdidos têm que crescer. Eles se separam no final. Peter volta sem eles para Neverland. Mas a visita de Peter em nossa janela à noite, nossa temporada na Terra do Nunca... nada foi em vão. Nós ficamos, ele se foi, envelheceremos, ele não! Mas será que cresceremos mesmo? Mentira! Só guardaremos as aparências. Antes de partir, ele ensinou o essencial: "Neverland é um lugar na mente". Aquela que ele construiu na matéria era só um modelo sensível para a gente entender a idéia regulativa. A vida dele era também um modelo sensível dessa idéia regulativa. Agora a gente entendeu. A missão dele está cumprida. Podemos ficar para sempre na Terra do Nunca...


Keep Michaeling...

Sunday, May 31, 2009

Mendicância Disfarçada


Sabe quando você está com alguém e ele encontra um conhecido com quem tem assuntos que não lhe interessam nem minimamente? Pois é, pessoas educadas se esforçam para participar da conversa, fingem interesse e tal. Já eu procuro desesperadamente por algo que me distraia no contexto... mesmo que seja uma revistinha da avon! Bom, ainda bem que não era de cosméticos, afinal, estas são até mais tediosas do que a conversa da qual eu fugia. Vendiam de tudo ali, de CDs a chinelos com penduricalhos. Mas o que chamou a minha atenção foi uma pulseirinha bem vaga-bunda. Com ela, queriam angariar fundos para uma cruzada contra a violência doméstica sofrida pelas mulheres brasileiras, uma causa que julgo das mais nobres, por sinal. O problema, para mim, então não era o fim, mas o meio: vender a tal pulseirinha. Você pagava uns R$5,00 e eles prometiam doar mais de R$4,00 para entidades e projetos em prol da causa. Como esta advertência vinha em destaque no anúncio e o produto era bem desinteressante, até para os padrões da revista, suponho que queriam convencer as pessoas a comprarem-no pelo bem da causa. Mas então por que não pedir o dinheiro para isso de uma vez?

Lembrei-me também do bonequinho ("Fernando", acho) da campanha do hospital do câncer de Londrina. A propaganda na TV deixa claro que o argumento para a compra não se baseia em nenhum benefício que o produto traria ao consumidor, mas sim na doação de parte do valor pago para o hospital. Ora, por que não pedem a doação de uma vez? O mesmo tem ocorrido frequentemente com quem faz campanha para caridade em prol de si próprio, ou seja, pede esmola. É o chavão da vez: "compre, por favor, para me ajudar". Bom, se o objetivo da minha compra for este, não é muito mais racional que eu dê o dinheiro e deixe o produto para lá? A própria confecção do produto não se torna um simples desperdício de matéria-prima, energia, tempo, etc... quando ele é convertido em simples máscara para a mendincância?

Quer dizer, do ponto de vista ambiental, esse tipo de "comércio" não passa de uma agressão inútil à natureza. Do ponto de vista de nossos interesses egoístas, ele não passa de uma desculpa para que sejamos importunados com um verniz de legitimidade, afinal, oficialmente, isso não é mendicância. Já de um ponto de vista humanitário, ele provoca piedade, porque revela a absoluta inaptidão do boa parcela da nossa população para o livre mercado. Essa gente não tem a menor noção do significado da palavra "empreendedorismo". Criaram um conceito maluco de "comércio" sem contrapartida! Eles não têm condições de sobreviver, porque tudo que sabem fazer é pedir, até mesmo quando parecem vender.

Sunday, May 24, 2009

Viva a Lattescracia!

Se minha memória não me trai, andei me queixando aqui mais de uma vez sobre o modo como os professores universitários são vistos e tratados pela sociedade de modo geral e pelas autoridades políticas em especial. Parece haver um entendimento (totalmente distorcido, diga-se de passagem) de que tarefa de professor é lecionar, portanto, se o indíviduo não está em sala de aula, não está trabalhando... Este é um dos lados da moeda. Neste post, quero falar do outro: da resistência que muitos professores universitários têm em prestar contas de seu trabalho fora de sala de aula.

Ora, se um professor universitário TIDE T-40, no estado do Paraná, tem o "privilégio" de lecionar "apenas" entre 08 e 12 h/a por semana, supõe-se que o restante de seu tempo esteja sendo ocupado de modo igualmente edificante. Certamente, uma parte considerável deste tempo restante teria que ser, ao menos em tese, destinado ao preparo daquelas lições ofertadas. Alguma parcela de seu tempo será também destinada a orientações e, de modo geral, ao atendimento dos alunos. Atividades burocráticas e administrativas, como reuniões de departamento e organizações de eventos, consumirão outra fatia significativa do seu tempo útil. Mas, mesmo para este professor que, idealmente, prepara aulas, atende alunos, participa das decisões administrativas de sua instituição e trabalha com extensão, certamente, haverá ainda uma parte de sua carga horária total destinada a uma coisa chamada "pesquisa". Esta é, ou era, a caixa-preta das universidades públicas. Talvez, os maiores culpados pelo aumento da carga horária em sala de aula e das atividades administrativas, que esmagam o professor-pesquisador, sejam as figuras totalmente alheias à pesquisa que inundaram a universidade brasileira por tantas décadas de concursos.

Até hoje, para muitos professores universitários, a pesquisa é aquela cota de seu horário para a qual ele não presta contas de modo algum. É, ou era, difícil saber se o sujeito passa aquele tempo destinado à "pesquisa" batendo papo no corredor com um café em uma mão e um cigarro na outra... ou na biblioteca com a cara fincada em um livro... ou no meio de suas pipetas no laboratório. Não é à toa então que o meio universitário (não digo acadêmico) resista tanto às exigências de publicações das pesquisas impostas pelas agências responsáveis pela formação de pessoal de nível superior. Agora, estão abrindo a caixa-preta!

É difícil imaginar, quem dirá conceber, o que um professor-pesquisador poderia ter contra uma regra estipulando a necessidade de um mísero artigo publicado ao ano, por exemplo. Será que um professor que passa 12 meses sem escrever 10 páginas que sejam merece ter seu salário pago na qualidade de professor universitário? Ah, mas ele não dirá que não escreveu. Ele é muito produtivo, aliás! Ele apenas não publica! Ao contrário de você, ele está sempre trabalhando na nova Crítica da Razão Pura, então o pobre certamente precisa dos mesmos 10 anos de silêncio tomados pela versão original até estar pronto para nos deixar ver uma pontinha dela que seja. Publicar resultados parciais? Nem pensar! Isto é para a plebe ignara que se dobra às exigências das agências.

Não passa nem de longe pela mente dessas criaturas a compreensão do quanto à publicidade integra o núcleo essencial de todo saber que seja digno de ser tratado como tal. No melhor espírito daquilo que Kant - campeão de publicações com décado de silêncio e tudo - chamou de "egoísmo lógico", eles não acreditam que a submissão de seus trabalhos ao sistema de análise por pares seja a única pedra-de-toque de sua qualidade. Pior ainda, eles acreditam, possivelmente, que os únicos pares que merecem ouvi-los e ser ouvidos por eles são os poucos compadres que esporadicamente sentam ao redor de uma pequena mesa em seus gabinetes. Na melhor das hipóteses, pensam que os alunos servem como público crítico para atestar a validade de seus resultados. Tudo para justificar racionalmente o medo doentio de se exporem a uma audiência verdadeiramente crítica, que, virtualmente, incluiria qualquer doutor, portanto, um verdadeiro par seu, naquele assunto. Para horror dos horrores, a publicação, além de expô-lo potencialmente a qualquer crítico, ainda o faria por meio do registro escrito, portanto, propiciando a análise mais meticulosa e rigorosa.

Bom, chega de falar dessa espécie temorosa da palavra escrita e da audiência crítica. Para resumir tudo em poucas palavras, o que procuro dizer é que a publicidade é dever da universidade! Dever da universidade, porque ela tem a obrigação de produzir conhecimento como legado para a humanidade, e não apenas de profissionalizar uns poucos. Acima de tudo, dever da universidade, porque ela tem a obrigação da objetividade e esta não existe sem o controle crítico intersubjetivo.

O mundo da lattescracia ainda convive com os coronelismos da antiga academia brasileira. Não seremos ingênuos o bastante para negar esse fato. As mesmas exigências não caem ainda com o mesmo peso sobre todos. Mas os interessados na verdadeira profissionalização e modernização da academia brasileira precisam defender com unhas e dentes os critérios objetivos e quantificáveis, pautados em índices de produtividade, contra toda ameaça de retrocesso ao subjetivismo e à falta de transparência reinante até pouco tempo atrás.