domingo, 15 de abril de 2012

O sonho do retorno ao paraíso


Até onde consigo me lembrar do que me foi ensinado na infância, na mitologia cristã, o paraíso é o habitat original do homem, ou melhor, de Adão e Eva. Nele, o primeiro casal desfruta da natureza sem ter que trabalhar sobre ela, não é isso? A necessidade do trabalho seria justamente a punição decorrente da desobediência a Deus quando no paraíso. Assim, fica estabelecida a relação entre o trabalho para manutenção da vida e um castigo moral com uma temporalidade determinada, em vez de se tomar o primeiro como um fato natural acompanhando necessariamente, e não transitoriamente, a finitude animal do ser humano.

As formigas carregam folhas muito mais pesadas do que elas próprias, os leões precisam abater a caça se não quiserem ficar de barriga vazia... mas o homem... ah, não é natural levantar às 06h00 da manhã, pegar a marmita e sair para o batente. O destino do homem, de certo, é jogar xadrez e discutir filosofia, ou, sendo mais realista, tomar cerveja e discutir futebol, enquanto a divina providência tudo a ele provê. E assim foi feito o marxismo, essa versão moderna e secularizada do cristianismo.

Em vez de colocar o paraíso no início da história humana, como fez o cristianismo, o marxismo preferiu situá-lo ao final dela. O comunismo será então aquele estado de coisas em que o homem, liberto da necessidade de trabalhar pela sua auto-preservação, verá o trabalho duro ser feito apenas pelas máquinas. Sim, máquinas desempenhando aquele papel que era reservado a Deus no paraíso dos cristãos.

Naturalmente, o darwinismo não convenceu o cristão de que nunca houve tal estado originário com o qual ele sonhava e ao qual, ainda que seja depois da morte, ele pretende voltar. Da mesma forma, o marxismo não admite refutação, até porque nunca determinou mesmo a data precisa da nossa entrada no paraíso comunista. Ambos, cristianismo e marxismo, serão eternamente alimentados pelo puro e simples desejo de negação do mais evidente estado do homem: o de animal, lutando pela sua sobrevivência sobre a face da Terra, até que um meteoro qualquer nos extinga... e pronto.