domingo, 17 de junho de 2012

"A ciclovia é lá em cima" vs. "on your left"


Tá, eu abomino os ambientalistas que querem dominar salvar o mundo, mas curto muito um estilo de vida natureba, com atividades ao ar livre e tal. Daí que, como já informado aos senhores por meio deste blog, uma das coisas que mais gosto de fazer na vida é pegar minha bike e sair sem rumo aos domingos. Agora, veja que tristeza ter que fazer isso em uma cidade onde uma das poucas ciclovias existentes tem que ser isolada do restante da via por meio destas "tartarugas" horrorosas aí da foto. Quer dizer, quase que erguem um muro entre a via destinada aos veículos automotores e a ciclovia, para que carros e motos não usem o espaço das bicicletas sem o menor pudor.

Pior é que, como eu pude notar mais uma vez no meu passeio de hoje, não é apenas para os motoristas que os ciclistas nunca são bem-vindos, na verdade, sempre são vistos como invasores. Os pedestres têm o mesmo sentimento e ficam igualmente contrariados se um ciclista trafega por seus passeios, mesmo que o ciclista o faça devagar, com todo cuidado e boa educação.

Exemplo: eis que eu abandonei por alguns instantes a ciclovia entrincheirada da foto para poder pedalar mais perto do lago, em uma pista bem mais agradável e pouco movimentada. Sem nenhuma expressão de contragosto, o que não senti mesmo, parei no meio da pista - geralmente usada por pedestres, mas sem nenhuma sinalização de exclusividade - para não atrapalhar a foto de um casal. Enquanto eu esperava, o rapaz gentilmente disse para que eu passasse, pois eles ainda demorariam para definir a pose ideal. Já a moça fez questão de me lembrar: "também, a ciclovia é lá em cima".

Como eu sempre noto, são os pequenos gestos do dia-a-dia que revelam a educação de um povo, ou, no caso, a falta dela. Nestas horas, sinto saudade da utópica Boulder, cidadezinha quase ideal do estado americano do Colorado, onde vivi, infelizmente, apenas por um breve período de tempo. Enquanto Londrina levanta uma trincheira entre sua rara ciclovia e a rua, Boulder simplesmente marca o espaço do ciclista em cada via, seja quando se trata de dividir esse espaço com pedestres seja quando o compartilhamento deve ser feito com os carros. Nas ruazinhas residenciais mais ermas, não é feita a marcação, mas cada um obedece o seu espaço do mesmo jeito, conforme esteja a pé, de carro ou de bicicleta. Quando o pedestre se distrai e anda pela metade do passeio geralmente destinada ao ciclista, basta que este último grite "on your left", frase símbolo da cidade, e o primeiro sabe que deve se recolher para a sua direita para permitir a passagem pela sua esquerda.

Nunca observei nenhum conflito ou a menor discussão no trânsito de Boulder. Apenas presenciei a queda de um ciclista que teve que desviar abruptamente quando um grupo de turistas alemães ficou sem saber o que fazer diante de um "on your left". O ciclista se levantou e seguiu em frente sem reclamar. Eu expliquei aos turistas o que eles deveriam fazer da próxima vez. Simples assim.

Ah, mais do que das montanhas, sinto falta da civilização...