terça-feira, 2 de julho de 2013

"Acalma o teu coração!"


Hemlock Grove é um conto de fadas macabro sobre um garoto que carrega as trevas dentro de si, ou seja, sobre um garoto que somos nós. Durante todo o desenrolar da história, Roman Godfrey não sabe de sua origem, da verdade sobre sua mãe, portanto, desconhece sua própria natureza. De modo confuso para si próprio, ele apenas sente a necessidade de derramar sangue. Todavia, ele escolhe saciar essa necessidade cortando a própria carne, o que, a princípio, parece apenas um fetiche sexual mórbido.

Eis então que a tragédia se abate sobre a vida de Roman e ele perde todos a quem amava. Por uns, ele é abandonado; outros são tomados dele pela morte. Era esse o momento que sua mãe, de quem ele herdou sua natureza sombria, esperava. Ela se deleita com a chegada da hora em que Roman, finalmente, seria dominado pela crueldade, assim como ela própria fora tanto tempo atrás.

No momento da fúria de Roman, a mãe, que simboliza todos os acontecimentos prévios genéticos e ambientais que o... determinam?..., estende a ele a navalha para que ele cometa o crime contra um inocente indefeso. Então, no ápice de Hemlock Grove, Roman ilustra singelamente a dualidade em nós que Kant tentou explicar por meio de uma complicada distinção entre o "eu inteligível" e o "eu empírico". Roman corre em desespero para diante de um espelho, olha para seus próprios olhos no reflexo e ordena a si mesmo: "Acalma o teu coração!"

O eu refletido no espelho é o eu empírico, aquele que nasceu de uma mãe monstruosa, que foi preparado para o mal desde o primeiro instante de vida e que sente o desejo dele; o eu que, diante do espelho, ordena ativamente que essas inclinações sejam contidas é o eu inteligível. Por que este último é chamado "inteligível"? Porque qualquer tentativa de naturalização de seu comando calaria sua voz, tiraria dela toda sua autoridade. 

Como já sabia Kant, Roman só descobre que pode acalmar seu coração e tornar-se senhor de seu próprio destino, porque ele sabe que deve, dever este que é destruído quando convertido em mera estrutura da psique pelo conceito de "superego" ou quando explicado como introjeção da cultura cristã. Em suma, o dever precisa ser puro para que sua voz se faça ouvir verdadeiramente pelo coração. E só o dever em sua pureza nos revela o poder que revelou a Roman, o poder de até mesmo se auto-destruir se preciso for para se auto-obedecer. 

Roman, mais uma vez, usa a navalha na própria carne. Desta vez, ele não apenas se fere para não ferir. Ele se mata para não matar. Calmo! Mas é neste ponto da narrativa que a natureza se impõe definitivamente sobre Roman. Ele renasce como aquilo que a mãe sempre desejou que ele se tornasse: um monstro como ela. A transformação física de Roman parece o triunfo da mãe natureza sobre a liberdade do arbítrio: "Eu sempre venço", a mãe lhe diz.

De novo diante da criatura inocente e indefesa que Roman deve sacrificar, finalmente, ele mata... a própria mãe. Calmo!