sexta-feira, 20 de abril de 2012

A política e as trapaças semânticas


Em "Sobre o sentido e a referência", Frege exige que nenhum nome próprio seja usado sem que, antes, nos certifiquemos de que ele possui um referente, ou seja, designa de fato um objeto. Essa exigência, que repercutirá tão profundamente na ontologia do Tractatus de Wittgenstein, é um pressuposto necessário do sentido das proposições que podem ser verdadeiras ou falsas.

Não me parece difícil entendermos, ainda que grosseiramente, o que Frege tem em mente. Desde que, para ele, a asserção é uma passagem do nível da apreensão do mero pensamento, isto é, do sentido das sentenças para o nível da referência das sentenças, se os nomes que compõem as sentenças não possuírem referência, tampouco as sentenças terão uma referência, ou seja, poderão ser verdadeiras ou falsas. Assim, uma linguagem perfeita precisa ser uma linguagem sem termos vazios.

O que chama minha atenção é o modo como o próprio Frege, imediatamente, apresenta as possíveis implicações políticas de suas teses lógicas. Falando sobre os "abusos demagógicos" resultantes da falta de atenção para com a exigência explicitada acima, ele diz: "'A Vontade do povo' pode servir como exemplo; pois é fácil perceber que não há, de modo algum, uma referência geralmente aceita para essa expressão".

Eu penso que Frege tenha toda razão! Nossa época ainda é pródiga do (ab)uso político de conceitos cuja referência é pouco clara e cujo apelo popular, não obstante, é muito forte. Não há político que não fale em "bem comum", "interesse público"... e assim por diante.

Para ficarmos só com um exemplo, o tão edificante "bem comum" não teria que ser a simples adição do bem-estar de cada um? Porém, se for assim, como ele seria possível, uma vez que o meu bem-estar sempre pode, contextualmente, conflitar com o seu? O emprego que eu quero é o que você também quer! O sorriso que eu gostaria de ter recebido foi endereçado a você. E assim é, que eu saiba, desde que Caim matou Abel...

Mas, se não for essa a referência do conceito, o que é então esse bem do todo que não designa simplesmente o bem-estar somado de cada uma das partes sem exceção? Será que podemos aceitar tão tranquilamente que exista um bem que seja comum a todos sem que ele represente a harmonia do que é explicitamente reconhecido e perseguido por cada um?  Mais fundamentalmente, o que pode ser também o meu bem, posto que é o bem comum, e, ao mesmo tempo, divergir daquilo que eu deliberadamente busco e que sempre pode encontrar em você um obstáculo?

Enfim, a política, meus amigos, contém todo tipo de trapaça, inclusive, as semânticas ;-)