domingo, 22 de abril de 2012

O ateu cristão


Hoje em dia, é "cool" ser de esquerda e mais "cool" ainda ser ateu. Porém, não é nada "cool" ser marxista revolucionário. Portanto, encontramos muita gente descolada com a configuração ideológica: "esquerdista-reformista ateu". O problema é que, na maioria dos casos - e dando continuidade ao que eu dizia abaixo sobre trapaças semânticas da política -, essa gente não tem a menor ideia do que diz quando fala, por exemplo, em "justiça social". Explico.

Quando se é marxista, se tem disponível o conceito de "mais-valia", que implica na convicção de que há um regime de exploração inerente ao capitalismo: o burguês enriquece graças à mais-valia gerada pelo operário. Assim, poderíamos entender a "justiça social" como uma espécie de devolução ao operário pobre daquilo que, afinal, era dele mesmo.

Agora, e se abandonamos Marx, como muitos esquerdistas "cool" abandonaram, e passamos a ver o valor da mão-de-obra como um mero resultado da lei da oferta e da procura? Desse modo, o trabalhador só pode ser considerado injustiçado se for coagido a trabalhar para quem lhe paga abaixo do valor de mercado de sua mão-de-obra. Não há mais nenhuma exploração inerente à relação de compra e venda da mão-de-obra, ou, ao menos, nenhuma que seja evidente, dispensando maiores esclarecimentos e justificativas.

Nesse cenário, o esquerdista "cool" precisa justamente então de um novo esquema conceitual para explicar qual a injustiça da relação trabalhista a ser reparada por um sistema estatal de redistribuição de renda. O problema é que, em minhas conversas com a tribo dos esquerdistas "cool", tenho notado que eles não dispõem desse esquema. Há apenas uma noção intuitiva de que os ricos devem ajudar os pobres, sendo que o Estado teria todo direito de coagir aqueles ricos que se furtassem a fazê-lo por bem. Na verdade, na opinião deles, o Estado tem por principal função tirar dos ricos para dar aos pobres, produzindo igualdade social por executar a "justiça social".

Mas qual o argumento por trás dessa convicção tão enraigada? Ora, sei que há o esquerdista "cool" mais sofisticado, que lê Rawls e tal, mas a grande maioria, por mais filósofo ou cientista social que se diga, tenho visto, apenas subscreve aos valores da sociedade cristã em que se criou. Somos todos irmãos em Cristo, devemos amar o próximo como a nós mesmos, etc, etc...

Assim, veja, eu até entenderia o esquerdista cristão querendo erigir um Estado cristão, por mais que isso remeta, a meu ver, a alguma confusão quanto ao que é de Cezar. O problema mesmo é o mocinho "cool" que abandonou o cristianismo e, agora, quer colocar como um dogma acima de toda necessidade de prova que eu tenha deveres positivos e materiais para com gente que nem conheço e, pior ainda, que o Estado possa (e deva) me obrigar a cumprir com esses deveres. Ai ai... Ateus cristãos, vão até ali tomar um gole de coerência (de repente, estudar um pouco de Rawls e companhia) e, depois, a gente conversa ;-)