sábado, 9 de junho de 2012

Caridade hermenêutica


Eu devo ser muito lerda mesmo, porque, até hoje, eu ainda não tinha entendido o tal "princípio da caridade hermenêutica". Do modo como haviam me explicado, esse princípio parecia-me muito mais um argumento de autoridade, afinal, foi-me dito: "você pressupõe que o autor esteja certo, por exemplo, porque ele está sendo estudado a mais tempo do que você existe, portanto, se você acha que o argumento dele é inválido, na verdade, o mais provável é que o argumento dele seja válido e você não o compreenda".

Claro que essa explicação subserviente e patético do princípio não faz nenhum sentido, afinal, para começar, o princípio não poderia se aplicar apenas à leitura de autores clássicos. Hoje, depois de ter aprendido na prática do que trata o princípio, através do contato com bons e maus parceiros de argumentação, eu vejo que a caridade hermenêutica é um princípio normativo que deve orientar até nossas conversas de bar. Significa pura e simplesmente que, em vez de tentar distorcer as palavras do outro para tornar o argumento do seu interlocutor mais suscetível à refutação, pelo contrário, você atribuirá àquelas palavras o argumento mais forte que elas puderem suportar, mesmo que seja um argumento que, na realidade, nem tenha de fato ocorrido ao seu interlocutor. Você age assim, porque só uma refutação construída dessa forma pode ter verdadeiro valor epistêmico, o que não se equipara ao simples prazer vaidoso da vitória retórica obtida a qualquer custo.

Experimente dialogar com quem não conforma sua conduta discursiva ao princípio em questão. Você passará muito mais tempo explicando o significado das suas palavras originais do que propriamente construindo argumentos e contra-argumentos. Por outro lado, se você tiver o prazer de encontrar em uma conversa alguém que siga o princípio da caridade hermenêutica, você estará diante de alguém que possivelmente dirá melhor do que você mesmo aquilo que você gostaria de ter dito. Isso, por sinal, para os grandes espíritos, será muito mais prazeroso do que meramente ganhar ou perder uma disputa pessoal.