domingo, 10 de junho de 2012

Por que aprendemos tão pouco?


Parece natural pensarmos que, se tivermos um professor capaz de ministrar uma excelente aula sobre um assunto, então aprenderemos aquele conteúdo ministrado. Enquanto você ouve o professor, tudo faz tanto sentido, as conexões são tão naturais, a estrutura do discurso é tão clara... Como não pensar que você aprendeu? Geralmente, acredita-se que, se você não aprendeu algo de uma aula tão brilhante, é porque se distraiu em algum momento ("não prestei muita atenção nessa parte"), de modo que o professor é melhor ainda se, além de saber expor claramente o conteúdo, ainda tem vocação para showman e consegue entreter os alunos o tempo todo, para que a atenção deles não divirja da aula.

Pois, ao que me parece, nada poderia estar mais equivocada do que essa concepção de educação que toma o professor como o grande agente do processo. Na verdade, lecionar realmente é fantástico para a aquisição do conhecimento... por parte do professor! Como um professor meu me disse durante a graduação, e nunca mais esqueci porque se confirmou na minha própria experiência, só há três maneiras de apreender um conteúdo: 1) lecionando sobre ele; 2) apresentando um seminário sobre ele; 3) produzindo um texto sobre ele.

Se você duvida, faça o teste. Tente escrever uma dissertação sobre um conteúdo que você pensa que domina e veja quanta dificuldade você terá. Por outro lado, você constatará, ao final do processo, que, aí sim, você terá aprendido. Ou ainda, tente explicar para alguém aquilo que você acha que entendeu sobre dado tema. Primeiro, você esbarrará em uma série de lacunas que você não sabia que estavam presentes no seu pretenso conhecimento do tema. Depois, se você persistir, verá que, finalmente, tem um domínio adequado do tema.

Por isso, quer me parecer que o melhor método de ensino estaria centrado na produção do aluno, com o professor como um orientador dessa produção. Imagine, por exemplo, se pudéssemos transformar cada componente curricular de um currículo universitário em uma espécie de projeto que o aluno teria que desenvolver sob supervisão/com orientação. Naturalmente, seria necessário diminuirmos o número de componentes, pois não me parece razoável cobrarmos do aluno a conclusão de 4 ou 5 projetos por semestre, por exemplo. Penso que 2 ou, no máximo, 3 projetos seria uma proposta mais razoável. O número de alunos por professor também teria que ser drasticamente reduzido, mas, com o corte pela metade de componentes curriculares, isso não seria tão custoso. Algumas palestras sobre pontos específicos comuns a vários projetos poderiam ser ministradas a título de auxílio com problemas pontuais. No decorrer do projeto, orientandos e orientadores poderiam se reunir em seminários para exposição de resultados parciais.

Honestamente, acredito que, se fizéssemos assim, os alunos conservariam para o restante da vida muito mais do que conservam hoje de suas experiências acadêmicas. Sem contar que, com a necessidade de uma produção ativa, as tais competências e habilidades de que tanto se fala, finalmente, seriam desenvolvidas. Porém, eu não tenho a menor esperança de algum dia presenciar uma mudança tão radical, mesmo nas universidades. Meu desespero de qualquer evolução significativa tem sua raiz em um ponto em que eu toco constantemente neste blog. Vivemos em uma sociedade em que o indivíduo deve ser inserido em um coletivo para então ser conduzido como gado, com o que o modelo atual de aulas expositivas para plateias silenciosas se ajusta perfeitamente. Portanto, não vejo esperança para qualquer esforço em prol da autonomia do aluno ou de quem quer que seja. Sempre se parte do princípio de que lidamos com uma massa de incapazes, que não pode se responsabilizar por seu próprio destino, ou atingiríamos resultados desastrosos para a sociedade. Por isso mesmo, nossas escolas são apenas fábricas dessa mesma massa de incapazes, que, uma vez formada, aguardará um emprego para exercer o mesmo papel inativo que exercia na escola. Espírito empreendedor? Pois é... se já existiu, morreu, e foi a escola quem matou.

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Acrescento este vídeo, que foi uma sugestão de Fernando Mässen @ferhr