quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Platão, Kant, Bruce Wayne e nosso exibicionismo moral


O final do penúltimo filme do Batman já havia me feito lembrar de Platão de duas maneiras. Primeiro, porque contam uma mentira para o povo em nome da manutenção da ordem justa na cidade de Gotham, o que, naturalmente, nos remete à estratégia platônica da criação de toda uma mitologia para ser ensinada ao povo para que cada grupo respeite o lugar social que lhe caberia em uma cidade justa. Mas isso me importa menos. O que achei mais interessante foi o fato do Batman ter terminado o filme, não apenas sendo justo, mas parecendo injusto.

Sabemos que, para Platão, o "supra-sumo da injustiça é parecer justo sem o ser", o que seria o caso do promotor criminoso cujos crimes foram assumidos pelo Batman. Já o Batman seria então aquele personagem platônico que, "sem cometer falta alguma", teve "a reputação da máxima injustiça". Sempre nas palavras da República de Platão, a pedra de toque da justiça seria o fato desse alguém se recusar a "vergar-se ao peso da má fama e suas consequências", continuando a ser justo, mesmo parecendo injusto.

Ora, claro que, quando Platão nos pergunta qual deles - o justo com aparência de injusto ou o seu oposto - foi o mais feliz, ele formula seu problema dentro de um quadro conceitual bem diferente do kantiano. Porém, quer me parecer que, também para Kant, o mesmo modelo funcionaria como pedra de toque da justiça: continua em jogo saber se o homem justo continuaria a ser justo mesmo que não pudesse colher benefícios de sua justiça, isto é, mesmo que ele não tivesse a aparência de homem justo, que, sem dúvida, mesmo em uma sociedade corrupta e corrompida como a nossa, ainda tem lá suas vantagens.

É neste contexto filosófico em que poderíamos falar da discussão em torno da pureza do móbil moral que a trilogia do Batman cumpre um papel relevante nos nossos tempos. Eu fico imaginando se o imbecil que atualiza o status do Facebook dizendo que foi doar sangue, por exemplo, não fica envergonhado ao sair do cinema após ver o Batman. É impressionante como as redes sociais, sobretudo, o Facebook, fizeram aflorar um exibicionismo moral como poucas vezes deve ter existido. Todo mundo quer ser herói! Um vai salvar os gansos do foie gras, outro vai acabar com o aquecimento global andando de bicicleta... e por aí vai. Cada um faz propaganda da própria vida como um exemplo a ser seguido para a salvação da humanidade.

Enquanto isso, o Batman, que é o Batman, nem sequer salva o planeta, ao contrário do meu amigo do Facebook, que avisa que faz xixi no banho pelo bem das gerações futuras. Batman apenas salva Gotham, e olha lá. Acima de tudo, o herói é o próprio Bruce Wayne, na medida em que, quando o Batman finalmente ganha a fama de justo, então ele se recusa a se aproveitar dela. Diz que o Batman deve ser um símbolo, e não um homem.

Para completar meu regozijo com a trilogia, a grande vilã do último filme, desculpem o spoiler, é... ha ha ha... uma ambientalista, super preocupada com um mundo sustentável, energia limpa e blá blá blá. Adorei! Melhor que isso, só mesmo o capanga da vilã usando um discurso revolucionário esquerdista, típico dos vilões reais da América do Sul: "o poder para o povo, para os oprimidos". O que, como era de se esperar, significa o poder para ele mesmo e a tirania sobre todos os que se voltarem contra ele.

Enfim, deixa eu contar também o fim do filme, o Bruce Wayne vai lá, acaba com a revolução em Gotham, diz que o verdadeiro herói é aquele que tem o gesto mais simples, como o de colocar um casaco nos ombros de uma criança, depois, explode uma bomba atômica longe da cidade e... pasmem, não atualiza o perfil dele no Facebook para contar nada disso ;)