segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ayn Rand e o Rei do Camarote


Antes que você me pergunte, não, eu não vi o vídeo e nem li matéria alguma sobre o tal "Rei do Camarote". Mas acompanhei a repercussão no Twitter até enjoar e acho que acabei entendendo sem querer o que se passa. Aparentemente, trata-se de um sujeito que gasta muito dinheiro com produtos e serviços considerados supérfluos. Para usar o verbo favorito daquele blogueiro que é o "Rei do Coletivismo", o sujeito ostenta! Na verdade, por um Tweet que apareceu na minha timeline, parece que o Rei do Coletivismo, inclusive, já veio a público se pronunciar sobre o caso e, nisso, acusou o Rei do Camarote de cometer uma agressão com tamanha ostentação. 

Bom, nessa associação entre agressão e ostentação, eu já comecei a achar a coisa filosoficamente interessante. Depois, eu me interessei mais ainda em dar também meu palpite, quando vi amigos de tendências claramente liberais ou mesmo libertárias defendendo a conduta em questão com base em um suposto efeito econômico da gastança do indivíduo: o giro da economia, a alimentação de toda uma cadeia produtiva para atender à sede de consumo do cidadão ostentador. 

Ora, eu acho que o argumento dos meus amigos versados em economia deve ser válido. Se os economistas de esquerda adoram defender uma gastança governamental - e, para isso, até guerras costumam ser bem-vindas - exatamente por alegarem que ela tem efeitos positivos na economia, por que eu desconfiaria da capacidade dos gastos privados fazerem o mesmo e com muito mais êxito, por não implicarem em aumento de impostos ou inflação? Sendo assim, eu concedo o argumento até me mostrarem seus problemas. Aceitemos então que o tal Rei do Camarote gera benefícios sociais dos quais ele mesmo nem sequer desconfia.

O fato é que essa linha argumentativa, essa vontade de defender os benefícios sociais da conduta sub judice para isentá-la de reprovação moral muito me preocupa. O que me desperta angústias filosófico-morais é que esse raciocínio compra a verdade da premissa de que um comportamento não pode ser moralmente permissível se seu beneficiário for apenas o próprio autor da ação. É aqui que entra uma importante denúncia feita por Ayn Rand, alguém que eu nem sequer considero como uma filósofa respeitável, mas que me parece ter colocado o dedo em uma ferida e tanto. 

Penso que seja um câncer da nossa época essa moral coletivista que alça o beneficiário da ação a critério exclusivo de valor moral. Como Rand diz na Introdução da Virtude do Egoísmo, considera-se como boa qualquer ação praticada em benefício dos outros e má, por outro lado, qualquer ação praticada em benefício próprio: "Um industrial que produz uma fortuna e um gangster que rouba um banco são considerados como moralmente iguais, desde que ambos procuram a riqueza para seu próprio benefício 'egoísta'" [...]. Um ditador é considerado moral, desde que as atrocidades inenarráveis que ele cometeu tenham tido a intenção de beneficiar o 'povo', não a ele mesmo".

Ora, observem se ela não tem razão. Importantes políticos petistas envolvidos no escândalo do mensalão não foram imediatamente absolvidos nos tribunais éticos da blogosfera progressista unicamente por terem agido em nome do interesse do partido que, em última instância, seria o benefício do próprio povo? "Ah, mas ele não ficou com o dinheiro público para si, não enriqueceu", eu me cansei de ouvir. E a mesma rede progressista, como o caso em tela ilustra, não condena o cidadão que gasta o próprio dinheiro, única e exclusivamente porque ele visa o benefício de si próprio, e não dos outros? Pois parece-me estar aqui a exata confirmação do que Rand denunciava.

Nesse sentido, não penso que a resposta libertária ao coletivismo esteja em lições de economia que visem mostrar que o sujeito, de fato, nem sequer consegue beneficiar apenas a si mesmo ao ostentar sua riqueza. Se libertários somos de fato o polo oposto do coletivismo, cabe-nos rechaçar a premissa coletivista de acordo com a qual o indivíduo comete uma falta moral pelo simples fato de ter como fim a satisfação de seus próprios desejos, ainda que ele não pratique violência ou fraude para tanto. Se, pelo contrário, para defendermos a moralidade de uma conduta, tivermos que provar seus benefícios sociais, amigos, vocês podem até ganhar esta batalha do Camarote, mas será só porque os coletivistas já ganharam a guerra...